Chamada de Artigos Artefilosofia n.26 / Dossiê: Vilém Flusser, Walter Benjamin – as ambiguidades da técnica

Walter Benjamin reflete, em diversos momentos de sua obra, sobre a questão da técnica e temas correlatos, tais como o trabalho como mediador entre o ser humano e a natureza, realizando sua crítica ao progresso. Ele afirma: “Para que falar de progresso a um mundo que afunda na rigidez cadavérica? (...) Deve-se fundar o conceito de progresso na ideia da catástrofe. Que tudo ‘continue assim’, isto é a catástrofe. Ela não é o sempre iminente, mas sim o sempre dado.” Também o marxismo será revisto por ele, em função de sua concepção crítica do progresso: “Marx afirma que as revoluções são as locomotivas da história do mundo. Mas talvez isso seja totalmente diferente. Talvez as revoluções sejam o freio de emergência da humanidade que viaja neste trem”. Em“Rua de mão única”, Benjamin lembra que “[a] dominação da natureza, assim ensinam os imperialistas, é o sentido de toda técnica”. Mas a essa visão ele contrapõe outra: “A técnica não é dominação da natureza: é dominação da relação entre natureza e humanidade.” Na segunda versão de seu ensaio sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, ele desenvolve uma distinção entre a primeira técnica,cujo fim é o sacrifício da vida, e uma segunda técnica,que teria como exemplos paroxísticos a fotografia e o cinema, esta calcada no jogar junto com a natureza: “A origem da segunda técnica deve ser buscada onde o ser humano, com uma astúcia inconsciente, chegou pela primeira vez a tomar uma distância em relação à natureza. Em outras palavras, ela encontra-se no jogo. […] A primeira [técnica] realmente pretende dominar a natureza; a segunda prefere muito antes um jogo conjunto entre natureza e humanidade.” Ele nota ainda: “Justamente porque essa segunda técnica pretende liberar progressivamente o ser humano do trabalho forçado, o indivíduo vê, de outro lado, seu campo de ação [Spielraum] aumentar de uma vez para além de todas as proporções. [...] Mal a segunda técnica garantiu suas primeiras conquistas revolucionárias, as questões vitais do indivíduo – amor e morte – já exigem novas soluções”.

Vilém Flusser também tece considerações sobre esses dois lados ou dois tipos de técnica, assim como os desafios de se repensar amor e morte  na era das imagens técnicas. Sua teoria das imagens não diferencia, como Benjamin, imagens auráticas (cultuais) e pós-auráticas (reprodutíveis), mas sim imagens pré-modernas, que são obras de arte, e imagens pós-modernas, que “são produtos da tecnologia”. Estas últimas, ele nota no início de sua midialogia, são aquelas que nos programam. Em 1983, Flusser aponta dois futuros possíveis para a escrita: “ela ou se tornará uma crítica da tecno-imaginação [...] ou se tornará a produção de pretextos para a tecno-imaginação (um planejamento para aquele progresso técnico)”. No segundo caso, caminharíamos no sentido de transformar a vida em um aparato que se retroalimentaria eternamente. Por outro lado, em “O universo das imagens técnicas” e em outras obras do final da sua vida, Flusser aposta em uma profunda transformação de nossa natureza a partir da radicalização das imagens técnicas. Como em Benjamin, vemos a técnica despertando o germe fecundante da natureza e desdobrando seus potenciais. Em tons bem benjaminianos, Flusser escreve em 1991, em sua obra“A imaginação técnica”: “Temos que repensar todos nossos conceitos de arte, ciência, política, liberdade, condicionamento, acaso, necessidade, sim, de vida e morte”. E ainda: “A Einbildungskraft [imaginação] que está se estabelecendo agora abre campos de possibilidade que nós até então não tínhamos ousado sonhar, ou seja: a liberdade não será mais ‘de que’ mas sim ‘para que’ e a vida será a concretização de sempre novas possibilidades”.E na formulação de “Uma nova imaginação”, texto  de 1990,lemos: “os níveis de existência que temos de galgar graças a essa nova imaginação prometem-nos vivências, representações (Vorstellungen), sentimentos, conceitos, valores e decisões – coisas que até agora só pudemos sonhar, no melhor dos casos; essa ousadia promete colocar em cena as capacidades que até agora apenas dormitavam em nós’. Também para Flusser o jogo é central nessa nova imaginação criativa: “somente quando as imagens são feitas a partir de cálculos, e não mais de circunstâncias [...] é que a ‘estética pura’ (o prazer no jogo com ‘formas puras’) pode se desdobrar; somente assim é que o Homo faber pode se desprender do Homo ludens”.

Nossa proposta como organizadores deste dossiê é que os autores desenvolvam e aprofundem a filosofia da técnica desses dois autores fundamentais, seja comparando-os, seja aprofundando-se nesse tema que se torna essencial em nossa era, esta cada vez mais consciente do elemento destrutivo da técnica, mas que tampouco se cansa de sonhar com utopias, sejam elas tecnológicas ou simplesmente naturalistas e pós-tecnológicas. Em que medida a proposta desses dois autores, de repensar as artes a partir da técnica (téchne), foi determinante para a teoria da arte? Como essas teorias podem ser iluminadas a partir do confronto e diálogo com outros autores teóricos e críticos da técnica/arte, como, por exemplo, Ernst Bloch, Adorno, Horkheimer e Heidegger? Quais as filosofias e teorias da história por detrás dessas concepções de técnica/arte?Como elas estão cooptadas ou tensionadas por um pensamento teológico e/ou messiânico? Como as novas tecnologias da atualidade podem ser lidas a partir dessas obras ou, ainda, em que medida as novas tecnologias exigem atualizações ou mesmo superações do legado desses autores? A arte-midia atual repagina a questão da técnica: como podemos pensar esse fenômeno a partir de Flusser e Benjamin? Por fim, como a ética da responsabilidade e a filosofia da técnica de Hans Jonas pode dialogar com a proposta de Flusser e Benjamin?

Organizadores do dossiê:

Rachel Costa, Mestrado em Filosofia, UFOP e Escola Guignard - UEMG

Márcio Seligmann-Silva, Teoria Literária - UNICAMP

 

Data para o envio dos textos: 22/03/2019

 

Dados para a formatação dos textos:

Os artigos deverão ter, no máximo, 20 páginas, no seguinte formato: papel A4, documento do tipo Word, com fonte Times New Roman 12, em “estilo normal” ou “corpo de texto”, espaço simples entre linhas, parágrafos justificados e margens de 3 cm, evitando-se o uso de recursos avançados de edição, como estrutura de tópicos e semelhantes.

Todos os trabalhos deverão apresentar: título e resumo em português e em inglês, com 200 palavras no máximo; palavras-chave nas duas línguas.

Autores: não deverão ser identificados em nenhuma parte do texto do artigo (sistema duplo blind peer review). A mini-biografia do autor, a afiliação institucional e o endereço de email devem ser informados no formulário de submissão, não no corpo do texto.

As referências bibliográficas deverão ser relacionadas ao final do texto, em ordem alfabética, de acordo com as normas da ABNT.


Ilustrações: gráficos, tabelas, desenhos, mapas etc. devem ser numerados e titulados tão perto quanto possível do elemento a que se refere, indicando sua fonte. Os direitos de reprodução de imagem devem ser conseguidos pelos próprios autores.

Citações: para as citações no texto devem ser adotado o sistema numérico (NBR 10520:2002). A indicação da fonte é feita por numeração única e consecutiva, em algarismos arábicos, remetendo-se a nota de rodapé pela referência completa na primeira menção, devendo conter Sobrenome do autor (seguido de vírgula), prenomes (seguido de ponto); Título da obra em negrito (seguido de ponto); edição (seguido de ponto); local (seguido por dois pontos); editora (seguido de vírgula); ano da publicação (seguido deponto); se for o caso indicar o volume ou tomo e finalmente a página da fonte. Na segunda menção Sobrenome do autor (seguido de vírgula); prenomes (seguido de vírgula); op.cit. (na obra citada); página da fonte. Quando as notas do mesmo autor estiverem em sequência, poderão ser usadas as expressões latinas, seguidas do número da página citada. A) apud: citação de segunda mão; cf: confrontar refere-se a; ibid na mesma obra citada (mesmo autor, mesma obra, porém páginas diferentes); id mesmo autor (mesmo autor, mesma obra, mesma página); op.cit. na obra citada. As citações diretas curtas (até três linhas) devem vir entre aspas e incorporadas ao texto e sem alteração do tipo de letra. As citações longas (mais de três linhas) devem apresentar recuo de 4 cm da margem esquerda, com letra menor que a do texto utilizado (fonte 11) e sem aspas. As citações indiretas devem vir sem aspas. As citações de citações podem utilizar a expressão apud e a obra original a que o autor consultado está se referindo deve ser citada. Para outras informações acerca do uso de citações, o autor deverá consultar a ABNT (NBR 10520:2002).

Referências: deverão ser apresentadas observando-se rigorosamente a ordem alfabética. As referências bibliográficas deverão ser elaboradas conforme as disposições da NBR 6023:2002, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), somente com elementos essenciais.

Modelo de referência bibliográfica de livro:

SOBRENOME, Nome do autor; SOBRENOME, Nome do autor. Título do livro: subtítulo do livro. Edição. Local: Editora, ano. Xx p.

Modelo de referência bibliográfica de livro disponível on-line:
SOBRENOME, Nome do autor; SOBRENOME, Nome do autor. Título do livro: subtítulo do livro. Edição. Local: Editora, ano. Xx p. Disponível em. Acesso em: DD/MM/AAAA.

Modelo de referência bibliográfica de artigo publicado em periódico:
SOBRENOME, Nome do autor; SOBRENOME, Nome do autor. Título do artigo. Nome da revista, Cidade, v.00, n.11, p.111-222, jan. 2012.

Modelo de referência bibliográfica de artigo publicado em periódico disponível on-line:
SOBRENOME, Nome do autor; SOBRENOME, Nome do autor. Título do artigo. Nome da revista, Cidade, v.00, n.11, p.111-222, jan. 2012. Disponível em:. Acesso em DD/MM/AAAA.